Numa era globalizada não pode ser a tecnologia o único meio a fomentar a integração dos povos e das suas culturas. É imperativo que as formas de relacionamentos entre pessoas também evoluam. O planeta está a ficar mais apertado, os contactos entre povos com culturas diferentes é cada vez mais frequente e a forma de relacionamento com o outro terá de evoluir para dar resposta aos desafios colocados por esses desenvolvimentos.
O aumento da pressão social colocada pelo acréscimo dos confrontos entre diferentes impôe uma questão: como é que uma estrutura ética pode conciliar a manutenção das identidades com a promoção da conversação inter-cultural? No futuro próximo este é um dos grandes desafios da humanidade. Caso contrário continuaremos a ser regidos por estruturas éticas que incidem nos aspectos que dividem a humanidade, fomentando o conflito e interrompendo com frequência a conversação social e a aprendizagem.
O ser humano sempre se viu a si próprio como uma entidade especial no seio da natureza e do universo. As razões apontadas são várias: porque se relaciona de forma especial com o(s) criador (es) do universo, porque é o expoente máximo da evolução, porque é consciente dos seus actos, porque é um ser racional, porque é capaz de ter compaixão, de transformar a sua envolvente em proveito próprio, porque faz cultura ou porque desenvolveu uma linguagem extremamente complexa. Diferentes pessoas em diferentes épocas deram ênfase a estes e outros aspectos com o intuito de definir o ser humano.
Nada me leva a rejeitar qualquer um desses argumentos, mas rejeito qualquer leitura transcendental do seu conteúdo. O que é universal na humanidade é a nossa dimensão natural, enquanto seres evoluidos de uma linha filogenética comum. Tudo mais é imanente dessa condição. A nossa cultura é um prolongamento da nossa identidade biológica. Um prolongamento extraordinário, que nos distingue a todos no seio do universo, mas que em nada distingue o nosso valor enquanto seres humanos, pelo contrário, para estarmos aptos para acreditar em algo temos de nascer integralmente humanos. Nenhum ser humano é mais especial que qualquer outro porque nasceu e foi criado numa qualquer envolvência cultural específica. Rejeito qualquer leitura purificadora associada à cultura, seja ela qual for. Antes de sermos da nossa cultura somos seres humanos. Esse é o maior valor, e é a humanidade que nos cabe proteger.
A diversidade cultural faz parte do património da humanidade. Constitui-se como um fundo, reservatório de todo o conhecimento e valores da humanidade. E como a criatividade é subsidiária da diferença, cada ser por ser único é, em potência, mais uma fonte da criatividade humana. Em cada um reside parte das soluções para parte dos problemas da humanidade.
Por todos estes motivos a ética do futuro deve alicercar-se nos valores da identidade humana e da promoção da conversação e aprendizagem cultural: deve servir para proteger a diversidade cultural, deve saber promover o acesso ao reservatório de valores e conhecimentos da humanidade a qualquer cidadão do mundo, e deve contribuir para preservar o ser humano nas suas características fundamentais e promover o seu enriquecimento.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
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