segunda-feira, 29 de junho de 2009

Bases para um humanismo contemporâneo

Para muitos esta crise é a demonstração da necessidade de mudar. Mudar o sistema económico, social e político. Alguns andam mesmo entusiasmados com o facto de "isto" estar a mudar. Contudo talvez seja ainda permaturo falar em mudança efectiva. Chegará lá, mas ainda demora. Faltam mais algumas sacudidelas.

Mas é fundamental compreender que só será possível mudar quando se oferece uma alternativa. Que ainda não existe. Talvez alguns esboços. Mas nada ainda de substancial.

Hoje valorizar o ser humano - o outro - é o grande desafio.

A sociedade da complexidade trouxe consigo um ambiente quotidiano muito diverso: onde se convive diariamente com o normal e o estranho, o conhecido e o incompreensível, o hábito e o imprevisto. O que é novo talvez seja a quantidade de vezes em que nos deparamos com todos esse aspectos que fogem à nossa intelegibilidade imediata e intuitiva.

Sem dúvida que o ser humano tem ferramentas cognitivas preparadas para lidar com tudo isso. Mas para além da manutenção daquilo que é hoje conhecido, vivido e usado, que por si só, e em função da complexidade já atingida, exije grande capacidade e esforço multidisciplinar, o que é novo exige um esforço suplementar. A ser verdade que a grande alteração está na quantidade de vezes que somos atingidos pelo imediatamente cognoscível e pelo incognoscível, então este ambiente exige maior capacidade de investimento, mais e melhor esforço.

Será determinante encontrar uma visão que esteja de acordo com as características da sociedade complexa, ou seja, inovação, diversidade, circulação e complexificação crescente. Isso solicita a aprendizagem como um aspecto central da nova ética individual.

Mas será suficiente? Não. As soluções de hoje exigem diferentes abordagens e conhecimentos complementares. Já não é possível lidar com o ambiente de forma isolada, individual, sem incorrer no erro de simplificar ao ponto de empobrecer a visão desse mesmo ambiente. Perdendo com isso capacidade para lidar com as próprias solicitações que advém do aumento da complexidade que construímos.

É necessária uma cooperação mais intensa e dinâmica.

A cooperação deve ser dinâmica porque o ambiente é dinâmico. A ética da aprendizagem individual é em parte uma resposta, mas tsmbém um efeito na criação desse ambiente complexo, diverso, dinâmico e instável.

Portanto, cooperar também entra no domínio dos desafios da sociedade complexa. Cada indivíduo, numa sociedade tão diversa como a nossa, é em si mesmo parcialmente incompreensível e estranho aos olhos dos outros. Desta forma também aqui a aprendizagem e tolerância se tornam em ferramentas fundamentais para lidar com o meio.

Não há cooperação sem tolerância ao estranho, mas também não há forma de cooperar sem reduzir o grau de estranheza que qualquer outro possa provoca em nós. Temos de nos familiarizar com cada um que é outro, mas não devemos reduzi-lo às nossas imagens do certo e errado, sob pena de diminuir o seu potencial contributo no âmbito da colaboração. Só assim o outro tornar-se-á numa extensão de nós próprios: vendo o que nós não conseguimos, tendo soluções que nós não temos, criando comnosco...

Valorizar o outro é crucial num ambiente onde a colaboração é uma necessidade. Mas isso só se faz quando aprendemos o que é o outro sem excessos de espectativas.

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