quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quem sabe colaborar?

Por aqui na nossa terra é muito comum ouvir críticas à inexistência de espírito de colaboração. Dizemos nós de nós mesmos que somos incapazes de trabalhar em equipa.

Na abordagem usual, vivida, quotidiana, essas críticas surgem como um sintoma de irreconciliação entre o cidadão e as suas espectativas. Mas de facto "Roma não se fez num dia". Estamos a aprender.

Digo eu que essa intolerância é por si só um bom indicador, uma vez que representam em si mesmo uma revalorização do acto de colaborar. E também demonstram que existem forças internas que reagem e estabelecem limites. Logo, para mim são altamente encorajadoras. Mas é necessário convertê-las em trabalho de transformação e construção.

É verdade que este sentimento gera enormes frustrações. A consciencialização dos próprios erros e insuficiências é a fase mais crítica de qualquer processo de mudança. Porque gera perguntas mas não dá respostas; porque gera vontade que não é acompanhada de capacidade efectiva; porque se apresenta como óbvia ao indivíduo, mas nada diz sobre a forma como vai ser abordada pelo colectivo. E, de repente, o tempo urge. E a urgência aumenta a intolerância. E a intolerância crónica gera isolamento. E o isolamento cria um maior desfasamento entre o indivíduo e a sua realização. E assim se desenvolve um padrão comportamental negativo.

Mas estamos aqui e somos o que somos. A recriminação pode servir de bolsa de ar, por um breve período. As críticas podem confirmar as nossas altas espectativas de que o desenrolar dos acontecimentos será negativo. Dando uma sensação de satisfação que em parte é altamente perversa: a confirmação é uma forma de recompensa intelectual que tende a reforçar as nossas ideias, e, portanto, tende a fechar o nosso mundo num mundo de hábitos de pensamentos.

São esse hábitos que estão e têm de ser postos em causa.

Alguns estudos indicam que as exigências relativas à colaboração estão a aumentar: são cada vez mais complexas porque exigem mais colaboradores, maior diversidade de competências e personalidades, maior capacidade de afirmação individual, maior capacidade de ajustamento de todos e exige que todos os membros se mantenham actualizados, exige grande capacidade de síntese e velocidade de decisão, exige aprendizagem colectiva, exige grande capacidade de gestão de recursos humanos, logísticos e materiais em simultâneo, etc.

Ora, se a realização dos desejos individuais depende da capacidade de realização do colectivo, esta tendência sugere que as necessidades e a necessidade de implementar colaborações é cada vez maior. A valorização da colaboração é um primeira etapa para responder a esse desafio. Falta agora aprender a colaborar. Não basta o desejo. Não basta a exigência. Não basta a intenção.

Mais: parece-me que no que toca à colaboração, neste ambiente de complexidade, os portugueses estão a dar os primeiros passos. Porque não acompanhámos convenientemente a evolução social do mundo no periodo anterior ao 25 de Abril. E aquilo que deveria ser feito por estágios, maturado, internalizado, tem de ser feito num ápice.

E isso deverá gerar maiores assismetrias, disconexões, incompreensões,... Até que se compreenda efectivamente como lidar com essa dificuldade.

Ao vivermos numa forma de vida profundamente desajustada às necessidade de um mundo complexo criámos esse conflito entre o desejo individual e a capacidade efectiva de concretização da sociedade no seu todo. Esse desajustamento é assinalado quotidianamente pelo alta intensidade das respostas emocionais. Nós estamos dentro dum padrão de hábitos que é conservado pela intensificação das respostas emocionais. Não convertemos a irritação, frustração, etc, em trabalho de promoção da coesão social. Optamos por reagir emocionalmente de forma mais ou menos íntima: oscilando entre o silêncio e a explosão. E assim não somos capazes de reverter essa insatisfação em trabalho qualificante e em tempo útil. Ou assim parece para alguns.

Sabe-se hoje que bastam pequenas mudanças nos hábitos mentais e comportamentais para que subitamente se crie um movimento cognitivo e social tão alargado e profundo que permite alterar toda a perspectiva da envolvente de um conjunto crescente de pessoas. Do que vejo estamos a entrar num limiar desse tipo. Cá estarei para me regozijar por viver num período tão fértil e entusiasmante.

(Texto rearranjado a partir de outro publicado no blog Bisturi a 31 de Março de 2009)

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