quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bases para um humanismo contemporâneo - III

Para muitos esta crise é a demonstração do efeito nefasto da ausência de ideologias. Será? É uma leitura possível.

Contudo considero que o humanismo pouco deve às ideologias do passado: fossem religiosas, políticas, económicas ou científicas. Porquê? Porque as ideologias são estruturas cognitivas que para se manterem activas exigem muita estabilidade. Sendo elas uma base lógica do pensamento e comportamentos dos seus proponentes qualquer estímulo que perturbe a sua estrutura não é bem recebida.

As ideologias criam um verdadeiro amor a si próprias. Quem adere a uma ideologia não se relaciona com os outros através daquilo que eles são, nem sequer tem essa preocupação, o seu objectivo é encaixar o outro na trajectória cognitiva adequada aos príncipios da estrutura ideológica, tanto ao nível do seu pensamento como do comportamento.

A ideologia não tem respeito pela integridade do outro. E por isso considero que qualquer excesso de ideologia será um passo atrás na humanização das relações e do espaço social.

O fim das grandes ideologias deu-se para dar lugar a esta sociedade mais dinâmica, diversa e complexa. Não aconteceu porque o ser humano simplesmente escolheu acabar com elas, elas são incompatíveis com esta sociedade. Nós vivemos numa sociedade que vive numa grande tensão entre a alta instabilidade gerada por um ambiente multiestimulador e os grandes núcleos de elevada regularidade e estabilidade. Mas é toda essa estimulação que faz desses núcleos espaços de reconstrução permanente. E isso seria incompatível com uma estrutura que se sustenta em si própria, que orienta todos os raciocínios dentro da sua própria lógica. Que convive mal com a perturbação.

No nosso mundo, liberal, das sociedades abertas, a ideologia tende a ser substituida por pequenos conjuntos de princípios, mais posicionados na aprendizagem e reconstrução permanente do que na orientação de uma forma definitiva de ser. A coesão social, que não é mais do que o grau de interesse que manifestamos para ouvir e colaborar com aqueles que constituem a nossa envolvente, passa a ser sustentada na capacidade de gerar resultados. Quando as ideologias foram substituidas por pequenos núcleos de princípios orientadores a sociedade adquiriu uma capacidade se crescer em complexidade que é ela mesmo a referência de avaliação do estado do sistema. Se crescemos estamos bem, não crescemos estamos mal.

Se estamos bem e avaliamos a nossa trajectória recente como sendo positiva geramos confiança, libertamos a criatividade, geramos mais nichos mas com elevados índices de coesão, se os resultados são vistos como negativos a tendência é aumentarem as probabilidade para criar um ciclo de destruturação e homogeneização.

Esse é o novo espaço da ética humanista: aprender a conviver com a perturbação. Ser resiliente quanto baste, o suficiente para manter sempre uma base ética de exploração da nossa intimidade e integridade, mas sem ser demais para estarmos abertos aos outros e à negociação no espaço público. Ou seja, ser diferente q.b.

Cada um pode e ocupa um nicho ecológico próprio. E essa é a sua mais valia quando o ambiente é complexo.

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