quinta-feira, 9 de julho de 2009

Nova Política: moral e relativismo

Em linhas gerais as quatro Reith Lectures de Michael Sandel foram baseadas na defesa da seguinte ideia: a política e a sociedade foram tomadas pela ideia de que tudo tem um preço. Ou, por outras palavras, que cada vez mais coisas podem ser enquadradas pelo ângulo da economia, nomeadamente economia de mercado.

Esta filosofia procurou retirar do âmbito do debate e da acção política os assuntos morais, conferindo-lhes o rótulo de “assuntos técnicos e/ou admnistrativos”. Essa conquista assentou numa crescente confiança nas ciências: por um lado, porque a sua criatividade na formulação de soluções sociais tem sido avassaladora, segundo, porque prevaleceu a noção de que estas baseavam as suas análises livres de valorizações. Fossem elas de âmbito político, social, moral ou cultural. Essa ideologia caiu. Já são poucos os que acreditam que a ciência é neutra.

Hoje é possível afirmar que as ciências são em si mesmas domínios de âmbito cultural, com éticas próprias, inserida no diálogo social, logo impregnadas pelas visões política dos seus meios envolventes. Ora, tendo tido a ciência um papel fundamental na construção da sociedade contemporânea, quando se altera a nossa visão sobre as suas faculdades obviamente que isso também exige alteração no seu posicionamento como actor da política.

A ciência não é omnisciente nem neutra, exige-se por isso uma maior participação de outros actores e uma prevalência cada vez maior de outras formas de estabelecer a governação das sociedades. As democracias terão de evoluir para uma maior participação e isso faz-se dando maior capacidade para as populações influenciarem os seus destinos.

Como defende M. Sandel os debates políticos têm de incluir e traduzir com maior frequência os assuntos da moral, incluindo na conversação social argumentos mais subjectivos. Mas isso cria novos desafios. Cada força social e política procurará influenciar o decurso da trajectória social, e as relações sociais e políticas tenderão a ficar mais tensas - porque aumentará o espaço para a negociação.

É em função desta situação que uma nova ética terá de florescer. Algo que regule as relações sociais e que se posicione entre as visões absolutistas e o vale tudo. E assim afirmo que o relativismo se torna num imperativo cultural.

A filosofia relativista pode ser mal interpretada e pode ter várias formulações. Mas eu aqui defendo aquela que é uma forma de relativismo com força moral. Ou seja, não encaro o relativismo como a defesa da anarquia ou do niilismo. Nem da indiferença. Defendo, isso sim, que o relativismo é uma filosofia moral, que se oferece como uma alternativa aos absolutismos e paroquialismos, porque é uma filosofia que valoriza à vida, as pessoas e os seus aspectos quotidianos. Que, simultaneamente, permite conciliar posições morais, construtoras de identidades, com a valorização do outro. Relativismo é uma ética relacional, que se opôe às éticas essencialistas (absolutistas e paroquialistas).

Ser este tipo de relativista é viver sempre com um certo grau de cepticismo; é valorizar a inteligência e conhecimento do próprios e do outro; é considerar fundamental aprender e mudar; é considerar a coerência como um meio e não um fim. É acima de tudo viver quotidianamente com a ideia de que a nossa própria identidade pode e deve ser posta em causa permanentemente. Só assim se pode viver num meio civilizado onde o subjectivo tem força de argumentação.

Caso contrário...

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