sábado, 4 de julho de 2009

A integridade e a resiliência social

Tenho usado muito o termo integridade, é importante esclarecer qual o significado que lhe dou.

E começo pelo que não é. Quando defendo que todos temos o dever de proteger a nossa integridade individual e a de qualquer outro cidadão, não estou a defender a conservação das identidades num determinado estado estático. Isso nem sequer é possível, por mais que já tenha sido tentado.

Parto para esta análise através do seguinte pressuposto banal: todos os indivíduos são diferentes. E defendo que essa diferença identitária provém (é causa e consequência) da existência de um núcleo cognitivo cuja composição é diferente de qualquer outra, mesmo que seja ligeiramente. No conjunto da personalidade e na suas relações internas essa situação faz cada indivíduo pensar e se comportar de forma diferente dos demais. Isto é, a suas lógicas são sempre diferentes. Ora, isso permite a cada um contribuir com uma visão do mundo, com propostas para cada assunto concreto, que mais ninguém poderia oferecer.

O significado desse núcleo é colocar cada pessoa dentro do seu próprio nicho ecológico. O que noutras palavras pode ser assumido como o seu contexto. E o posicionamento em cada nicho assegura uma valorização diferenciada de certos assuntos (objectos), uma elevada capacidade para acompanhar a trajectória desses assuntos, uma certa capacidade para os ligar aos contextos mais abrangentes, etc.

Como vivemos num mundo altamente complexo essa diferenciação permite aumentar a densidade e abragência sensorial e intelectual na relação com um determinado espaço da realidade, isso é fundamental. Mas a complexidade do ambiente também se caracteriza pela sua diversidade. E para lidar com essa diversidade é também fundamental potenciar essa densidade individual através da sua disponibilização para o todo, permitindo alargar essa base sensorial e capacidade intelectual. A articulação entre a dimensão individual, densamente especializada, e a dimensão social, significa uma maior capacidade para gerar fluxos. Que é hoje uma necessidade, para conseguir desenvolver as sociedades e os seus indivíduos nessa interdependência que lhe é característica.

Cada indivíduo isoladamente é incapaz de apanhar e processar todos os estímulos que o rodeiam, por isso depende da conversação para incorporar as leituras dos outros já sintetisadas. Desta forma aumenta a sua abrangência individual sem com isso aumentar o esforço intelectual dirigido a um assunto para o qual não estava preparado.

É nesse contexto que é necesário manter todos em actividade. Porque é desta forma que é possível dar ao contexto uma maior capacidade, abrangência e intensidade, para assimilar e processar todos os estímulos que hoje constituem o ambiente que nos envolvem quotidianamente. No qual se incluem a multiplicidade de espectativas, as nossas próprias e as espectativcas dos outros.

Aquilo que deve ser protegido na forma como lidamos com cada ser humano é a sua prontidão funcional. Todos temos um grau de resiliência. Aprender a lidar com isso é aprender a lidar com o outro porque exige conhecer o outro, naquilo que ele é. Procurando ajudá-lo a lidar com os desiquilibrios do seu desenvolvimento e com os seus ciclos de restruturação.

Portanto defendo que cada vez mais temos o dever de proteger os outros, acompanhá-los nas suas trajectórias próprias procurando manter o seu limiar de funcionalidade. Significa isso, suportar a sua capacidade produtiva ao nível económico, promover a sua capacidade de participar na conversação social, aumentar com isso os fluxos sociais e, com isso, a coesão interna da sociedade, e manter activo o potencial criativo de cada um, que só pode ser conseguido quando a pessoa é capaz de convocar a sua identidade para apresentar propostas que conciliam observação da realidade e processamento conforme os seus valores.

Como a capacidade de cada um depende da capacidade individual e da capacidade oferecida pelo seu contexto, quando protegemos o outro estamos também a proteger os nosso próprios interesses. Daí a importância de encarar o espaço público como um lugar de negociação e de construção intersubjectiva.

É essa conjugação entre a identidade e o ponto de resiliência que consisdero ser a integridade que deve ser protegida.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bases para um humanismo contemporâneo - III

Para muitos esta crise é a demonstração do efeito nefasto da ausência de ideologias. Será? É uma leitura possível.

Contudo considero que o humanismo pouco deve às ideologias do passado: fossem religiosas, políticas, económicas ou científicas. Porquê? Porque as ideologias são estruturas cognitivas que para se manterem activas exigem muita estabilidade. Sendo elas uma base lógica do pensamento e comportamentos dos seus proponentes qualquer estímulo que perturbe a sua estrutura não é bem recebida.

As ideologias criam um verdadeiro amor a si próprias. Quem adere a uma ideologia não se relaciona com os outros através daquilo que eles são, nem sequer tem essa preocupação, o seu objectivo é encaixar o outro na trajectória cognitiva adequada aos príncipios da estrutura ideológica, tanto ao nível do seu pensamento como do comportamento.

A ideologia não tem respeito pela integridade do outro. E por isso considero que qualquer excesso de ideologia será um passo atrás na humanização das relações e do espaço social.

O fim das grandes ideologias deu-se para dar lugar a esta sociedade mais dinâmica, diversa e complexa. Não aconteceu porque o ser humano simplesmente escolheu acabar com elas, elas são incompatíveis com esta sociedade. Nós vivemos numa sociedade que vive numa grande tensão entre a alta instabilidade gerada por um ambiente multiestimulador e os grandes núcleos de elevada regularidade e estabilidade. Mas é toda essa estimulação que faz desses núcleos espaços de reconstrução permanente. E isso seria incompatível com uma estrutura que se sustenta em si própria, que orienta todos os raciocínios dentro da sua própria lógica. Que convive mal com a perturbação.

No nosso mundo, liberal, das sociedades abertas, a ideologia tende a ser substituida por pequenos conjuntos de princípios, mais posicionados na aprendizagem e reconstrução permanente do que na orientação de uma forma definitiva de ser. A coesão social, que não é mais do que o grau de interesse que manifestamos para ouvir e colaborar com aqueles que constituem a nossa envolvente, passa a ser sustentada na capacidade de gerar resultados. Quando as ideologias foram substituidas por pequenos núcleos de princípios orientadores a sociedade adquiriu uma capacidade se crescer em complexidade que é ela mesmo a referência de avaliação do estado do sistema. Se crescemos estamos bem, não crescemos estamos mal.

Se estamos bem e avaliamos a nossa trajectória recente como sendo positiva geramos confiança, libertamos a criatividade, geramos mais nichos mas com elevados índices de coesão, se os resultados são vistos como negativos a tendência é aumentarem as probabilidade para criar um ciclo de destruturação e homogeneização.

Esse é o novo espaço da ética humanista: aprender a conviver com a perturbação. Ser resiliente quanto baste, o suficiente para manter sempre uma base ética de exploração da nossa intimidade e integridade, mas sem ser demais para estarmos abertos aos outros e à negociação no espaço público. Ou seja, ser diferente q.b.

Cada um pode e ocupa um nicho ecológico próprio. E essa é a sua mais valia quando o ambiente é complexo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Bases para um humanismo contemporâneo - II

Quando falo em humanismo quero dizer algo tão genérico como o seguinte: colocar o(s) outro(s) como um factor relevante nas minhas ponderações quotidianas. Sendo que outro significa aqui a sua integridade. Portanto, resumidamente, procuro fazer um esforço para ponderar o outro naquilo que ele é e deseja.

Depois há limites: os da minha integridade. Algures existe um espaço não definível, mas vivenciável, onde dois ou mais individuos são capazes de se sintonizar.

Mas tudo isto é demasiado abrangente e acaba por não servir para nada se não for enquadrado em algo mais denso. É isso que eu tento fazer nestes textos.

Mas tem servido, pelo menos para suportar uma ideia onde assenta a minha ética: o espaço público é o lugar de negociação, cuja finalidade é, a partir da conversação social, encontrar espaços onde se encontram marcas de expressividade de todo e qualquer individuo.

Mas essas marcas de expressividade só servem a sociedade quando vão para dentro do espaço de fluxos e passam a ser reproduzidas. Quando circulam no seio do diálogo social e lhes é dada oportunidade de servir e participar na construção social.

Nesta visão a dinâmica de poder não pressupôe a imposição de ideias e pontos de vista ao ponto de suprimir as alternativas do espaço público de circulação. Pelo contrário, aqui o poder está na capacidade para retirar dividendos dos conteúdos que circulam. O que pressupõe considerar que o outro é sempre uma fonte de conhecimento de valor.

Isso exige muito a cada cidadão. Somos todos guardiões dessa dinâmica. É dever de cada um preservar, na sua actividade quotidiada, em cada um das suas ponderações, a capacidade para permitir que a todos, com quem conversa e partilha espaço, seja dada a oportunidade de se expressar.

Num ambiente complexo a participação de todos não é apenas uma boa acção de uns quantos, é uma necessidade. É um bem de autopreservação porque é o meio para preservar e desenvolver a sociedade onde estamos inseridos.

«Quem sabe colaborar?»

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Bases para um humanismo contemporâneo

Para muitos esta crise é a demonstração da necessidade de mudar. Mudar o sistema económico, social e político. Alguns andam mesmo entusiasmados com o facto de "isto" estar a mudar. Contudo talvez seja ainda permaturo falar em mudança efectiva. Chegará lá, mas ainda demora. Faltam mais algumas sacudidelas.

Mas é fundamental compreender que só será possível mudar quando se oferece uma alternativa. Que ainda não existe. Talvez alguns esboços. Mas nada ainda de substancial.

Hoje valorizar o ser humano - o outro - é o grande desafio.

A sociedade da complexidade trouxe consigo um ambiente quotidiano muito diverso: onde se convive diariamente com o normal e o estranho, o conhecido e o incompreensível, o hábito e o imprevisto. O que é novo talvez seja a quantidade de vezes em que nos deparamos com todos esse aspectos que fogem à nossa intelegibilidade imediata e intuitiva.

Sem dúvida que o ser humano tem ferramentas cognitivas preparadas para lidar com tudo isso. Mas para além da manutenção daquilo que é hoje conhecido, vivido e usado, que por si só, e em função da complexidade já atingida, exije grande capacidade e esforço multidisciplinar, o que é novo exige um esforço suplementar. A ser verdade que a grande alteração está na quantidade de vezes que somos atingidos pelo imediatamente cognoscível e pelo incognoscível, então este ambiente exige maior capacidade de investimento, mais e melhor esforço.

Será determinante encontrar uma visão que esteja de acordo com as características da sociedade complexa, ou seja, inovação, diversidade, circulação e complexificação crescente. Isso solicita a aprendizagem como um aspecto central da nova ética individual.

Mas será suficiente? Não. As soluções de hoje exigem diferentes abordagens e conhecimentos complementares. Já não é possível lidar com o ambiente de forma isolada, individual, sem incorrer no erro de simplificar ao ponto de empobrecer a visão desse mesmo ambiente. Perdendo com isso capacidade para lidar com as próprias solicitações que advém do aumento da complexidade que construímos.

É necessária uma cooperação mais intensa e dinâmica.

A cooperação deve ser dinâmica porque o ambiente é dinâmico. A ética da aprendizagem individual é em parte uma resposta, mas tsmbém um efeito na criação desse ambiente complexo, diverso, dinâmico e instável.

Portanto, cooperar também entra no domínio dos desafios da sociedade complexa. Cada indivíduo, numa sociedade tão diversa como a nossa, é em si mesmo parcialmente incompreensível e estranho aos olhos dos outros. Desta forma também aqui a aprendizagem e tolerância se tornam em ferramentas fundamentais para lidar com o meio.

Não há cooperação sem tolerância ao estranho, mas também não há forma de cooperar sem reduzir o grau de estranheza que qualquer outro possa provoca em nós. Temos de nos familiarizar com cada um que é outro, mas não devemos reduzi-lo às nossas imagens do certo e errado, sob pena de diminuir o seu potencial contributo no âmbito da colaboração. Só assim o outro tornar-se-á numa extensão de nós próprios: vendo o que nós não conseguimos, tendo soluções que nós não temos, criando comnosco...

Valorizar o outro é crucial num ambiente onde a colaboração é uma necessidade. Mas isso só se faz quando aprendemos o que é o outro sem excessos de espectativas.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mais palestras de Michael Sandel

Reith Lectures 2009: Morality in Politics (lecture 2)

http://www.bbc.co.uk/iplayer/console/b00l0y01



Reith Lectures 2009: : Genetics and Morals (lecture 3)

http://www.bbc.co.uk/iplayer/console/b00l59hf

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quem sabe colaborar?

Por aqui na nossa terra é muito comum ouvir críticas à inexistência de espírito de colaboração. Dizemos nós de nós mesmos que somos incapazes de trabalhar em equipa.

Na abordagem usual, vivida, quotidiana, essas críticas surgem como um sintoma de irreconciliação entre o cidadão e as suas espectativas. Mas de facto "Roma não se fez num dia". Estamos a aprender.

Digo eu que essa intolerância é por si só um bom indicador, uma vez que representam em si mesmo uma revalorização do acto de colaborar. E também demonstram que existem forças internas que reagem e estabelecem limites. Logo, para mim são altamente encorajadoras. Mas é necessário convertê-las em trabalho de transformação e construção.

É verdade que este sentimento gera enormes frustrações. A consciencialização dos próprios erros e insuficiências é a fase mais crítica de qualquer processo de mudança. Porque gera perguntas mas não dá respostas; porque gera vontade que não é acompanhada de capacidade efectiva; porque se apresenta como óbvia ao indivíduo, mas nada diz sobre a forma como vai ser abordada pelo colectivo. E, de repente, o tempo urge. E a urgência aumenta a intolerância. E a intolerância crónica gera isolamento. E o isolamento cria um maior desfasamento entre o indivíduo e a sua realização. E assim se desenvolve um padrão comportamental negativo.

Mas estamos aqui e somos o que somos. A recriminação pode servir de bolsa de ar, por um breve período. As críticas podem confirmar as nossas altas espectativas de que o desenrolar dos acontecimentos será negativo. Dando uma sensação de satisfação que em parte é altamente perversa: a confirmação é uma forma de recompensa intelectual que tende a reforçar as nossas ideias, e, portanto, tende a fechar o nosso mundo num mundo de hábitos de pensamentos.

São esse hábitos que estão e têm de ser postos em causa.

Alguns estudos indicam que as exigências relativas à colaboração estão a aumentar: são cada vez mais complexas porque exigem mais colaboradores, maior diversidade de competências e personalidades, maior capacidade de afirmação individual, maior capacidade de ajustamento de todos e exige que todos os membros se mantenham actualizados, exige grande capacidade de síntese e velocidade de decisão, exige aprendizagem colectiva, exige grande capacidade de gestão de recursos humanos, logísticos e materiais em simultâneo, etc.

Ora, se a realização dos desejos individuais depende da capacidade de realização do colectivo, esta tendência sugere que as necessidades e a necessidade de implementar colaborações é cada vez maior. A valorização da colaboração é um primeira etapa para responder a esse desafio. Falta agora aprender a colaborar. Não basta o desejo. Não basta a exigência. Não basta a intenção.

Mais: parece-me que no que toca à colaboração, neste ambiente de complexidade, os portugueses estão a dar os primeiros passos. Porque não acompanhámos convenientemente a evolução social do mundo no periodo anterior ao 25 de Abril. E aquilo que deveria ser feito por estágios, maturado, internalizado, tem de ser feito num ápice.

E isso deverá gerar maiores assismetrias, disconexões, incompreensões,... Até que se compreenda efectivamente como lidar com essa dificuldade.

Ao vivermos numa forma de vida profundamente desajustada às necessidade de um mundo complexo criámos esse conflito entre o desejo individual e a capacidade efectiva de concretização da sociedade no seu todo. Esse desajustamento é assinalado quotidianamente pelo alta intensidade das respostas emocionais. Nós estamos dentro dum padrão de hábitos que é conservado pela intensificação das respostas emocionais. Não convertemos a irritação, frustração, etc, em trabalho de promoção da coesão social. Optamos por reagir emocionalmente de forma mais ou menos íntima: oscilando entre o silêncio e a explosão. E assim não somos capazes de reverter essa insatisfação em trabalho qualificante e em tempo útil. Ou assim parece para alguns.

Sabe-se hoje que bastam pequenas mudanças nos hábitos mentais e comportamentais para que subitamente se crie um movimento cognitivo e social tão alargado e profundo que permite alterar toda a perspectiva da envolvente de um conjunto crescente de pessoas. Do que vejo estamos a entrar num limiar desse tipo. Cá estarei para me regozijar por viver num período tão fértil e entusiasmante.

(Texto rearranjado a partir de outro publicado no blog Bisturi a 31 de Março de 2009)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Moral e Mercado

Por Michael Sandel

Para o professor de Harvard a sociedade ocidental evolui de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Onde tudo tem um preço.

Este professor contesta a bondade desta forma de organização social e política. Considera que isso leva muitas vezes à degradação da moral e com isso do sujeito moral. Em algumas circunstâncias isso reduz a própria condição - valor - do ser humano.

A solução que nos apresenta é limitar o mercado e permitir que várias situações do quotidiano da nossa sociedade sejam conduzidas apenas pela moral. Isso implica revalorizar a conversação social e a escolha democrática.

http://www.open2.net/reith2009/index.html